Ouvindo certa canção, me peguei pensando nesse verso “Onde você ainda se reconhece: na foto passada ou no espelho de agora?” – a lista/ Oswaldo Montenegro.
Lembrei-me então do conto de Guimarães, onde tal homem se perde no contemplamento do seu reflexo e de tanto se questionar, se perde, desnorteia-se entre a realidade e a imaginação.
Entendo que todos passamos por essa situação uma vez na vida, quer dizer, muitas vezes na vida. Afinal, identificar-se é algo difícil, algo quase impossível porque para nós mesmos somos indecifráveis, talvez por nosso ego, alterego, id.... por tudo!
Olhar-se no espelho não significa saber quem você é. Nem significa se reconhecer. De tanto olhar sua imagem, você se acostuma, e quando tem que pensar em realmente quem você é, você não consegue se definir em uma palavra.
Alias, definição em uma palavra. Quem inventou isso? Acho que foi naqueles caderinhos de perguntas que rolavam na 5º série que tinha essa bendita pergunta: defina-se em uma palavra só!
Para mim, que falo pouco e sou tudo ao mesmo tempo, isso é impossível! Lembro que já me defini como espontânea, sincera, alegre, feliz, tanta coisa.... mas nenhuma definição se encaixaria hoje. Porque hoje o momento é completamente diferente da 5º série.
Embora eu acredite que o que muda são os personagens e não as histórias, até elas terminarem seu ciclo, os momentos nos definem mais do que nossa própria personalidade. Se bem que há características peculiares de nosso comportamento que todos identificam, que independe da época.
Posso afirmar com convecção que 100% dos meus amigos sabem o quanto sou “8 ou 80”.. hauhauahua... que isso faz parte da minha personalidade. Mas também posso afirmar que 100% das pessoas que convivo hoje olham pra mim e dizem: você é uma pessoa alegre!
Na 5º série, a professora amava minhas redações. No 2º colegial, eu vivia na bagunça com os meninos. Na faculdade, eu era a anti-social metida a besta. No meu primeiro trabalho, eu era a esquisita, no segundo eu era a hiponga, no terceiro eu era a capaz, e assim foi sendo.
Todavia, é importante demais os outros nos identificarem. Mas o mais importante é a gente saber quem realmente é. Não devemos nos perder no espelho, mas passar algum tempo admirando todas as suas linhas de expressões porque você se expressou, as rugas da idade, porque você amadureceu, a expressão tímida do olhar porque você se apaixonou, as lágrimas correndo porque você chorou...
E além do superficial, é necessário e imprecindível enxergar quem você se tornou ao longo dos tempos, quais as caracterísitas são natas e quais são do momento. Porque quando a gente se conhece e se admira, as coisas baixas não nos atingem, não somos alvos fáceis. Nos protegemos porque se tem a consciencia de que tudo é muito pequeno perto da rocha que nos tornamos.
E se eu fosse responder ao verso da música, eu diria: me reconheço na foto passada e no espelho de agora porque eu continuo a mesma, com as mesmas caracterísiticas, vivendo momentos diferentes. E digo mais, lembro ainda de outra música “Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher, sou minha mãe e minha filha, Minha irmã, minha menina, mas sou minha, só minha e não de quem quiser...”
Essa é a melhor frase: “mas sou minha, só minha e não de quem quiser...” porque é isso que o espelho nos reflete, nossa liberdade, nossa singularidade, nossa essencia, nossa ausencias, nossa independência e claro, carencias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário